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Perafita
Que terras e que mar... |
Perafita situa-se a norte do Porto, numa região que tanto se diz Douro Litoral, como já se disse de Entre-Douro-e-Minho. Toda a região é como uma espécie de anfiteatro, encostado à região transmontana e já voltado em abertura para o Atlântico. É também uma região onde predominam os graníticos e os campos, permeáveis e fáceis de agricultar, com características especialmente benéficas do clima influenciado pelos ventos marítimos e com as consequentes chuvas daí originadas. Estas características são responsáveis por uma densidade demográfica muito maior que a verificada no Alto Douro ou em Trás-os-Montes.
De nascente a poente, o curso vigoroso e pouco domável do Rio Douro, escavou, por vezes em contorcidos meandros, como que uma fronteira natural. Os seus principais afluentes fizeram outro tanto.
Este anfiteatro voltado ao mar apresenta-se com íntimas afinidades minhotas. É, como alguém já disse, meu «Minho de campos menos retalhados, de verdura menos fofa, de cor menos uniforme e de claridade menos crua».
Logo a norte do Porto, onde o Douro se vem espraiar, dois pequenos cursos de água, nem pelo facto de serem pequenos, deixaram de ser autênticos polos de atractividade para o povoamento humano. Primeiro o Leça que banha a região rústica da Maia e logo mais a norte, o Ave já com dois afluentes, o Este e o Vizela, nitidamente minhotos, desempenharam um importante papel nesse povoamento. Como que emanciparam esta faixa do litoral em relação à importância imediata do Grande Porto.
No seu passado mais recente toda esta área era agrícola. Prolongava-se profundamente pelos concelhos da Maia e de Vila do Conde. Nesta região a actividade agrícola sempre teve uma particular importância para o Porto. Dela, no seu conjunto, provinha um caudal de abastecimento da sua população, em leite, frutos, hortícolas e carne. Dela provinha também um fluxo importante de mão-de-obra. Ainda é possível ver como quase dentro do Porto, os quintais vão aparecendo por entre o casarão envolvido em arvoredo. São quadros rústicos que nos lembram os antigos subúrbios do Porto, todos eles actualmente em vias de profunda transformação urbana. Talvez por isso, ainda os horizontes apareçam de forma desafogada e limpa, aqui e ali, corrompidos por instalações industriais ou por bairros de habitação concentrada. Algumas destas instalações industriais, atraíram até meados do século, bastante mão-de-obra excedentária aos campos da freguesia. Nomeadamente as de fiação e tecelagem e a grande moagem que se implantaram à entrada do Porto. O espaço intermédio rodeado de campos e pinhais.
Já neste século, uma outra obra, agora para aeronaves, veio também alterar o panorama rural. A construção do aeroporto, após muita hesitação e outros tantos estudos, iniciou-se em 1943. Logo se tornou um pólo de atractividade importante para esta região. Em torno de ambas as obras, restaram muitas habitações proletárias e desenquadradas já do ambiente tradicional da freguesia.
Nesta região, desde há séculos marcada também por ser ponto de passagem das principais e secundárias vias que íam do Porto a Braga e a todo o Norte, um outro pólo de desenvolvimento anárquico se foi implantando subrepiciamente ao longo das estradas.
Mas, nem pelo facto de ter sofrido estas e outras profundas transformações, a agricultura foi completamente abandonada.
Está como que cercada pelas grandes construções viárias e urbanas, mas persiste empurrada agora para pontos do litoral onde o agricultor conseguiu há muito transformar vastas áreas de dunas arenosas, ventosas e de si pouco produtivas, em férteis hortas, graças à incorporação de muita matéria orgânica, retirada ao mar (sargaços e caranguejo), muito adubo e sobretudo mais trabalho. |